Este post é praticamente massagem cardíaca no meu blog natimorto. Mas sei lá. Tanta arte no mundo, não é justo eu ver sem compartilhar com todos que puder. Então aí vai.

Uma vez eu disse que adoro máquinas humanas, máquinas que têm a mesma natureza adoravelmente inútil e ineficiente de seus criadores. Então lhes apresento mais um exemplo dessas máquinas.

A  história é a seguinte: há um tempo atrás o Radiohead lançou concurso no site deles. O desafio era fazer um remix da música Nude, do In Rainbows. A pegadinha era que Nude tem uma escala 6/8, enquanto 99% das músicas que ouvimos têm escala 4/4. Basicamente, isso torna bem difícil juntar Nude com outras músicas sem ficar no mínimo “estranho”. E foi o que aconteceu. O Thom Yorke deu uma entrevista a uma rádio dizendo que os trabalhos enviados ficaram ridículos, e que eles criaram o concurso justamente para ver como as pessoas encarariam a tarefa.

Bom, depois da entrevista do Yorke, um estudante da Glasgow School of Arts achou interessante o fato das tentativas terem sido “ridículas”, e por isso resolveu criar um remix da música usando somente aparelhos obsoletos. Assim, os aparelhos, que além de velhos foram desenvolvidos para outras finalidades (muito menos delicadas que a produção de música), iam fazer sua tentativa patética de reproduzir arte.

A bateria ficou por conta de uma impressora Epson, um scanner HP encarou o baixo e 10 HDs velhos fizeram os vocais, além de mais alguns aparelhos estranhos e obsoletos completando a música. Um deles, o Spectrum, foi um brinquedinho muito usado pelos próprios músicos do Radiohead no começo da carreira, mas em pouco tempo substituido por máquinas mais complexas e atraentes.

E a graça é que o resultado não teve nada de ridículo. O charme daqueles aparelhos gastos e cansados é de fazer você correr pra cozinha e abraçar sua torradeira. Além disso, eu que sempre curti um “machine music” achei uma das coisas mais incríveis que ouvi nos últimos tempos. Pode parecer exagero dizer que ficou melhor que a versão original, então não vou dizer. Mas só pra não gerar controvérsia.

Chega de falar. Assiste logo, fazendo o favor. Mas recomendo ouvir a original antes.

Duas questões me assombram e me fascinam. Me mantêm acordado à noite e me fazem dormir melhor depois. São questões tão sem resposta que a mera busca por conclusões é tão sem sentido que se tornou minha maior obsessão.
Uma dessas questões é o equilíbrio entre forma e conteúdo. A outra é o significado de arte. São questões tão complexas que nem ouso escrever sobre elas a essa hora da noite. Se na minha cabeça elas já formam uma nuvem nebulosa composta de fragmentos de pensamentos e idéias contestáveis, em texto a confusão seria imperdoável.

E é por isso que o objetivo deste blog é ir comendo pelas beiradas, usando referências para lançar sementes de pensamento sobre estes dois assuntos, se é que são mesmo dois e não um só. Isso porque eu os encarava como temas distintos, questões distintas. Mas, recentemente, tenho repensado isso. E, depois ver este vídeo do Paul Rand, tive certeza de que na real elas são simplesmente duas abordagens da mesma questão. Só tenho medo de imaginar qual seria a questão.

“Arte é uma idéia que encontrou sua forma perfeita”. Putaqueopariu. O vídeo inteiro é recheado de frases geniais, mas essa me tirou o sono por algumas noites seguidas. Das centenas de definições que já li ou criei sobre o que é arte, essa é a que no momento ocupa o topo da lista. Continuo achando que não existe resposta para a pergunta “o que é arte”, pelo menos não uma que caiba em palavras. Mas só sei o Paul Rand é um cara iluminado, que conseguiu sintetizar muita coisa nessa frase. Ele tirou meu sono, mas também vai me fazer dormir melhor depois.

PS: estou cansado e com sono. O texto ficou péssimo. Mas precisava postar esse vídeo. Não que alguém leia este blog, foi mais por uma questão catártica mesmo. O vídeo mexeu demais comigo, e sempre que alguma coisa mexe assim comigo eu sinto a necessidade de divulgar, de uma forma ou de outra.

Sartre errou.

outubro 26, 2007

O inferno é que somos os outros.

Num post anterior, eu disse que toda criança é artista e que todo artista tem um pouco de criança. Só pra retomar, quero mostrar um vídeo de um artista que recentemente comecei a entender e me identificar. E essa música resume muita coisa.

Banksy

Se tenho certeza de alguma coisa nesse universo, é de que a boa arte é o reflexo de uma boa mente. Para se chegar à boa arte, primeiro é preciso gastar muuuito tempo desenvolvendo uma boa mente.
Afinal, nenhuma boa arte é completamente espontânea. Por mais que o momento da criação possa ser espontãneo, sua qualidade vai depender da qualidade da mente que chegou a este momento. A boa arte é a manifestação de anos e anos de estudo, construção de caráter, desenvolvimento da compreensão e mais uma infinidade de coisas que compõe uma mente artística. E da mente artística é que sai a boa arte.
Para deixar mais claro o que digo, uso um exemplo: Banksy, meu artista favorito. Ele é meu favorito por um simples motivo: sua arte é a mais simples expressão da sua mente. A arte em si não é esteticamente incrível: pelo contrário, ela segue a proposta dos stencils e se mantém básica: poucas cores, poucos detalhes. Mas a graça do trabalho está em algo extremamente colorido e complexo que ninguém pode copiar: a mente artística.
Com um estilete na mão e uma cartolina na outra, posso criar stencils do mesmo nível estético dos trabalhos do Banksy. Mas eu nunca conseguiria criar obras tão fortes, criativas e belas como as dele. Porque seu trabalho exigiu dedicação. Não na criação da obra em si, que deve ter demorado menos de um dia para ser recortada e menos de um minuto para ser aplicada. Ele se dedicou anos e anos a expandir sua mente, desenvolver sua percepção, afiar seu humor e fortalecer sua personalidade para que, com uma folha de cartolina e uma lata de tinta, pudesse tocar pessoas da forma mais profunda possível.

Banksy não é bom porque faz belos desenhos, e sim porque tem belas idéias. E, para mim, belas idéias exigem muito mais de um artista que belos desenhos.

GHSPoster

Uma das coisas que mais me interessa, tanto como pesquisador quanto como nerd, é o fato de que não sabemos porra nenhuma do que se passa no Japão. Indo do óbvio do “são outras referências, outras bases culturais” às incríveis privadas aquecidas, o fato de que há um mundo paralelo em algum lugar esperando para ser estudado me deixa mais empolgado do que você pode imaginar. Muito mais.

Então, pouco a pouco, vou me aventurando pelo incrível universo japa. Ano passado, vi um micro-documentário beeem interessante sobre os Hakikomori, jovens japoneses que se excluem do mundo por uma série de motivos que minha mente simplória e ocidental se esforçou para conseguir começar a entender. Em meia hora, o filme pinta um angustiante e fascinante retrato da juventude japonesa. Perdi o link do filme, mas se quiser ver é só avisar que te mando o vídeo.

Mas esse post é sobre minha mais recente descoberta no nipo-universo, o documentário The Great Happiness Space. Ele trata dos “Hosts” japoneses, que são basicamente homens pagos para satisfazer as mulheres. Mas, como nada no Japão é o que parece (ou o que faz sentido para a gente), os Hosts não fazem sexo com suas clientes. O trabalho deles, segundo os próprios não-michês, é fazer as clientes se sentirem amadas. Eles as tratam como se fossem princesas, com elogios, carinhos e palavras bondosas (e outras vezes nem tanto), e em troca ganham um salário digno de inveja. Isso é só o básico, depois vai ficando ainda mais estranho e chocante, acredite em mim. Mas eu certamente não vou conseguir explicar melhor que o próprio vídeo, que tem pouco mais de uma hora e vale cada minuto. E olha que desse eu tenho o link, tá aqui. Divirta-se.

Não sei exatamente o que eu adoro no trabalho da Adriana Salazar, só sei que adoro. Ela cria máquinas que reproduzem os mais inúteis dos movimentos humanos: Fumar, amarrar o sapato, agitar pom-poms, acender e apagar a luz. Tem até um par, em que uma máquina chora e a outra enxuga as lágrimas.

Ver uma máquina realizando um movimento tão banal dá outro sentido a ele, me faz ver exatamente o que tá acontecendo. Sei lá, mas ver essa máquina fumando me lembrou aquela técnica de meditação em que se deve prestar atenção a cada movimento envolvido na respiração. Tá tudo lá, só que em porcas e parafusos.

Acho que o que me faz parar e pensar no trabalho dela é idéia de criar máquinas sem um propósito, mas que ao mesmo tempo têm mais propósito que qualquer máquina, por serem humanas. Elas não nos ajudam em nada, mas ao menos nos lembram nós mesmos. São delicadas, inúteis, graciosas. Posso gostar mais de uma máquina que chora do que de uma que calcula meus impostos. E gosto ainda mais da que enxuga as lágrimas, pois é uma máquina com compaixão.

Mas o que eu gosto mais é que elas põe em cheque minha noção de utilidade, e de importância. O que determina a relevância de uma máquina? Seria o mesmo que determina a relevância de uma obra de arte?

Para entender melhor o trabalho da artista (que é colombiana, por sinal), vale muito ler essa entrevista que ela deu para a Regine, a gênia que escreve o igualmente genial We-make-money-not-art.